quinta-feira, 13 de maio de 2010

5a. PARTE DO ESTUDO DA MARIOLOGIA: A IMACULADA CONCEIÇÃO

A Maternidade Divina é o privilégio fundamental que Maria recebeu. Deste dom decorrem outras graças. Duas delas se referem respectivamente ao início e ao fim da vida terrestre de Maria: a Imaculada Conceição e a Assunção Corporal. Para ser digna Mãe do Verbo Encarnado, Maria foi isenta de todo pecado e, porque isenta do pecado ou Imaculada, foi também preservada da deterioração que a morte impõe ao corpo humano. O seu corpo, tabernáculo da Divindade, foi isento do poder do pecado e da morte. A Imaculada Conceição e a Assunção de Maria estão em íntima correlação entre si, e, foi mais fácil à Teologia formular a Assunção do que a Imaculada Conceição.


OBSERVAÇÃO PRELIMINAR


A Revelação foi formulada em palavras humanas a homens limitados. Por isto a percepção de tudo quanto nela está contido vai-se realizando na medida em que vão caindo os obstáculos das limitações humanas que dificultam a compreensão. Foi o que se deu com os dois artigos de fé concernentes à Imaculada Conceição e à Assunção.


“Cheia de Graça” (kecharitoméne) achava-se no Evangelho de Lucas desde o Século I. O povo cristão, como comunidade de fé, foi intuindo esse alcance com clareza crescente e sob a luz do Espírito Santo. Os teólogos procederam mais lentamente, de modo que, enquanto o “senso dos fiéis” afirmava a Imaculada Conceição, a teologia hesitou durante séculos, mais vagarosamente chegou à formulação exata. Em 1854 o Papa Pio IX não fez senão assumir e pronunciar solenemente o que já estava na consciência dos simples fiéis e dos teólogos ou mesmo na fé da Igreja dos Apóstolos.


DIFICULDADES PARA A COMPREENSÃO


Os antigos estavam conscientes de que Maria sempre viveu na graça de Deus, alguns entraves obscureciam a intuição:


· A santidade singular de Jesus: Nos primeiros séculos, o pensamento cristão se voltou para a absoluta santidade de Jesus. A santidade e a impecabilidade de Jesus foram deduzidas da sua união hipostática. Em Maria, porém não houve união hipostática;


· A universalidade da Redenção: Não há graça nem salvação que não venham de Jesus Cristo. Todos são pecadores e foram remidos por Cristo. Maria foi isenta do pecado original, ela nada deve a Cristo; está fora do plano salvífico do Pai;


· O conceito de pecado original originado: Todos admitiam que o pecado dos primeiros pais acarretou a morte e graves conseqüências para o gênero humano. Todavia nem todos entendiam do mesmo modo essas conseqüências. Alguns teólogos julgavam ser a morte física sem mais; outros, a morte segunda ou a condenação definitiva; outros, a deterioração do cadáver no sepulcro; outros ainda, o aniquilamento total do indivíduo mediante a morte...Enquanto perduravam essas hesitações, era difícil definir de que “pecado original” Maria fora isenta;


· Um problema biológico: Os antigos e medievais julgavam que a semente vital masculina era o único princípio ativo na conceição de um novo ser humano. O útero da mulher seria um recipiente passivo, uma “incubadora biológica” para desenvolvimento da semente masculina. O pecado de Adão se transmitiria por hereditariedade biológica ou pela semente masculina. – Este princípio explicava bem por que Jesus fora isento de pecado original; não era filho de S. José no plano biológico. Maria, porém, nascera da união matrimonial de S. Joaquim e Sta. Ana; por conseguinte, não podia ter nascido sem pecado original;


· O momento da infusão da alma humana: Quando começa a existir um ser humano? – Desde o momento da conceição ou da fecundação do óvulo pelo espermatozóide? Ou após certo intervalo (quarenta dias para os meninos, oitenta dias para as meninas?) – Prevalecia na antiguidade e na Idade Média esta segunda teoria; em conseqüência, perguntava-se: como falar da conceição Imaculada de Maria? Quem não tem alma humana (antes do 40º ou 80º dia) não é sujeito de pecado e, por isto, não se pode dizer que foi preservado do pecado original em sua conceição.


A HISTÓRIA DA REFLEXÃO TEOLÓGICA


1. O primeiro testemunho, Proto-evangelho de Tiago (VI 1 e 2), do séc. II. Um anjo terá dito a Santa Ana, estéril: “Conceberás e dará à luz; em toda a terra, se falará da tua descendência”. São Joaquim, que estava no deserto, recebeu aí a mensagem de outro anjo: “Joaquim, o Senhor Deus ouviu tua oração. Desce daí tua esposa Ana concebeu em seu seio”. Ana concebeu milagrosamente sua filha Maria SSma. Esta notícia não é tida como fidedigna; mas exprime no séc. II a consciência, dos cristãos, de que a conceição de Maria foi diferente da dos demais seres humanos;


2. Até o séc. V não há testemunho explícito da Imaculada Conceição, mas os escritores da Igreja se comprazem em louvar Maria como santa e pura, exprimindo assim a fé do povo de Deus;


3. A época do Pelagianismo (séc. V). Este afirmava a capacidade natural do ser humano para praticar o bem, sem necessitar da graça de Deus. Pelágio (+422) escreveu a S. Agostinho: “A piedade impõe que reconheçamos Maria sem pecado”. O Santo Doutor aceitou a observação: quando se trata de pecado, Maria está fora de cogitação. Entendia de modo diverso: Maria não teve pecado por graça de Deus, não por santidade da natureza como tal. S. Agostinho não podia chegar à noção de Imaculada Conceição, porque julgava que o pecado dos primeiros pais se transmitia pela semente vital do homem; além do quê, a universalidade da Redenção lho impedia. O pelagiano Juliano de Eclano (+454) objetava que Agostinho entregava Maria ao diabo. Agostinho retrucava: “Não entregamos Maria ao diabo em virtude do seu nascimento, pois este é redimido pela graça do renascer”;


4. No século VII os ocidentais começaram a celebrar a festa litúrgica da Conceição de Maria (a 8 de dezembro, nove meses antes da festa da Natividade de Maria celebrada a 8 de setembro). Na Grã-Bretanha (séc. X) celebrava-se a Imaculada Conceição. Não se sabe bem qual o objeto preciso dessas festas, a piedade popular se manifestava sempre do mesmo modo, á revelia de teólogos como S. Bernardo (+1153);


5. Nos séc. XI e XII S. Anselmo de Cantuária (1033-1109) deu um passo importante. Como S. Agostinho considerava o pecado original das crianças como verdadeiro pecado. S. Anselmo mostrou que não pode ser pecado em sentido próprio, pois a criança no seio materno não tem uso da razão. O pecado original (originado) consiste em uma ausência (graça santificante e dos dons originais que os primeiros pais perderam e não puderam transmitir) essa ausência não é castigo de Deus, mas é simplesmente a conseqüência da solidariedade que existe entre filhos e pais; os homens recebem dos primeiros pais a natureza humana despojada da graça, depois do pecado da desobediência;


6. No séc. XII, o monge Eadmero (+1134) com seu Tractatus de Conceptione Sanctae Mariae, mostra o contraste entre a devoção dos simples fiéis e a ciência dos teólogos, que se opunham a festa da Conceição; optou pela atitude do povo simples, a quem Deus revela seus mistérios. “Não podia Deus conceder a um corpo humano a graça de permanecer livre de toda pontada de espinhos, ainda que tenha sido concebido em meio aos grilhões do pecado? É claro que podia e queria; se o quis, Ele o fez”. É de lembrar que a castanha sai com a sua casca lisa de um invólucro cheio de espinhos. Eadmero muito se aproximou do problema, mas não chegou à noção de “preservação” (Maria foi preservada do pecado original). No Séc. XIII S. Alberto Magno (+1280) e S. Tomás de Aquino (+1274) negaram a Imaculada Conceição, pois não viam como conciliar com a universalidade da Redenção. Admitiam, porem, que Maria tenha sido purificada do pecado no seio materno, logo após a infusão da alma humana no embrião;


7. Séc. XIV, o franciscano João Duns Scotus (+1308), propôs o conceito de Redenção preventiva, virtude da qual Maria foi preservada de todo pecado graças aos méritos de Jesus Cristo (e em previsão destes). Maria, como descendente dos primeiros pais, contraiu o débito do pecado original, mas foi dispensada das conseqüências desse débito. A Imaculada Conceição de Maria não constituiu uma exceção à obra salvífica de Cristo, ao contrário, manifesta por excelência a eficácia da obra redentora de Cristo. Scotus acrescentou: Deus não está condicionado pelo tempo: Ele pode ter aplicado antes de Cristo os méritos que Cristo adquiriria pela sua morte e ressurreição. Maria não nasceu sem a graça santificante, mas teve-a desde o início da sua existência no seio materno; quanto aos dons paradisíacos, não se pode dizer o mesmo. A explicação de Scotus foi decisiva. Os franciscanos a assumiram. No Concílio de Basiléia em 1439: o cônego João de Romiroy propôs que os Padres conciliares definissem como verdade de fé a Imaculada Conceição de Maria; foi aceito, mas não logrou resultado, porque o Concílio deixara de estar em comunhão com a Santa Sé. A resistência à fórmula de Scotus por parte dos dominicanos, foi grande (discípulos de S. Tomás), mas havia alguns que eram arautos da Imaculada Conceição;


8. O Concílio de Trento não abordou diretamente o tema, mas declarou não ser sua intenção incluir a Virgem Imaculada dentro da universalidade do pecado original. Mandou a propósito observar as constituições do Papa Sisto IV. Este, mediante duas Bulas (1477 e 1482), proibiu que os teólogos, ao discordarem entre si sobre a Imaculada Conceição, se acusassem mutuamente de hereges e adotou oficialmente em Roma a festa da Imaculada Conceição;


9. Séc. XVII, o Santo Ofício (encarregado das questões de fé em Roma), sob a orientação dos dominicanos e seguidores de S. Tomás de Aquino, desaprovava a expressão “Imaculada Conceição da Virgem” e preferia que falasse da “Conceição da Virgem Imaculada”. Em 1661 o Papa Alexandre VII, mediante a Bula Sollicitudo, declarou-se em favor da Imaculada Conceição e proibiu qualquer ataque a esta doutrina. O Papa Clemente XI em 1708 estendeu a festa da Imaculada Conceição à Igreja inteira;


10. Encerrada a controvérsia, o Papa Pio IX houve por bem mandar estudar a fundo o assunto em vista de uma eventual definição dogmática. Assim, constituiu uma Comissão em 1848. Em 1849 publicou a encíclica Ubi Primum, pela qual consultava os bispos do mundo inteiro sobre dois pontos: A Igreja, esparsa pelo orbe, acreditava que a doutrina da Imaculada Conceição era revelada por Deus? – Era conveniente declarar essa proposição mediante solene pronunciamento do magistério? – Dos 603 bispos residenciais (que falavam como pastores diocesanos), 546 responderam positivamente às duas perguntas. Deste modo a bula definitória passou por oito redações. Finalmente, aos 8/12/1854 Pio IX proferiu a definição dogmática:


“Declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina que ensina que a Bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante da sua concepção, por singular graça e privilégio de Deus Todo-Poderoso e em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha da culpa original, é revelada por Deus e, por isto, deve ser professada com firme e constante por todos os fiéis” – Bula Ineffabilis Deus.


Algumas reflexões:


a. O texto da Bula não diz se a doutrina em foco foi explícita ou implicitamente revelada, mas pelos textos bíblicos demonstram tratar-se de revelação Implícita;


b. Maria foi remida e pertence à dispensação da graça obtida por Cristo, muito mais rica do que a graça possuída pelos primeiros pais;


c. “Maria foi preservada de toda mancha da culpa original”. Maria contraiu o débito do pecado, mas não o pecado mesmo. Esse débito não constitui mancha. Com efeito: se alguém impede outra pessoa de cair num pântano, essa pessoa não é manchada pelo fato de que teria caído se não fosse a intervenção alheia.


FUNDAMENTAÇÃO BÍBLICA


Não existe na S. Escritura texto que fale explicitamente da Imaculada Conceição de Maria, mas por trás de algumas passagens podemos verificar algumas verdades reveladas:


a. Lc 1,28: Maria foi Kecharitoméne (=foi e permaneceu repleta do favor divino). Maria vem a ser a primeira e a mais enriquecida de todas as criaturas. Esta plenitude de graça está ligada à vocação de Maria para ser Mãe do Filho de Deus feito homem. O pecado, que é sempre um Não dito à Deus, não cabe na existência de uma mulher que, por desígnio de Pai, é chamada a colaborar na vitória sobre o pecado;


b. Gn 3,15: O Senhor promete inimizade entre a mulher e a serpente. É certo que, tomado ao pé da letra, o texto se refere à única mulher do contexto, ou seja, a Eva. Todavia a mulher que, por excelência, deu à luz a prole vencedora da serpente, é Maria SSma – Em Maria se torna pleno o sentido de mulher ou de Eva (=Mãe dos vivos);


c. Lc 1,31: “Conceberás em teu seio”. Maria tornou-se, em grau vivo e pleno, o que eram a tenda do Senhor no deserto e o Santo dos Santos no Templo de Jerusalém. Mais importante do que qualquer santuário inerte é o santuário vivo de Maria Ssma. Em conseqüência, esta devia ser totalmente pura, isenta de qualquer mancha de pecado;


d. O povo de Israel, esposa do Senhor Deus: Ao pé do Monte Sinai o povo de Israel foi chamado a concluir uma Aliança com o Senhor, que o tirava do Egito. O dia em que isto se deu, foi considerado dia de núpcias entre Deus e o seu povo. Os Padres da Igreja e os teólogos fizeram a transposição: o que a sinagoga dizia a respeito de Israel, eles o disseram a respeito de Maria. Com outras palavras: assim como Deus purificou o seu povo de toda culpa e fraqueza, para que estivesse em dignas condições de proferir o seu Sim às núpcias do Sinai, assim Ele preservou Maria de toda mancha, a fim de que o Sim da Anunciação fosse mais belo e alegre.


REFLEXÃO TEOLÓGICA


A graça da Imaculada Conceição no contexto da Redenção possibilitou a Maria uma total entrega à obra de seu Filho em favor dos homens. Maria sendo cheia de graça, pôde entregar-se plenamente ao plano redentor do Pai. Pôde abrir seu coração, em nome da humanidade pecadora, à salvação messiânica que o Pai oferecia ao gênero humano. Assim, a conceição Imaculada de Maria foi a preparação, arquitetada pelo próprio Espírito Santo, para tornar possível o Sim generoso da Anunciação.


A graça de Maria, esperança da Igreja foi concedida em favor de todos os homens. A graça recebida por Maria sem mérito próprio da Virgem SSma nos diz que toda a história da humanidade está sob o signo não da desgraça e da condenação, mas da misericórdia, mais forte do que o pecado. Maria foi preservada do pecado, ao passo que nós fomos perdoados. Todavia, no fundo, trata-se da mesma graça divina: É a Redenção realizada por Cristo. Quando pedimos ao pai-nosso: “Não nos deixeis cair em tentação”, rogamos que Ele nos preserve como preservou Maria.


O dogma da Imaculada Conceição tem um significado profundo para a cosmovisão do cristão. Pena, que o minimalismo teológico estreita os horizontes e não permite ver o alcance das grandes verdades da fé. É o que se dá com várias denominações protestantes, que consideram a maternidade de Maria como um fato meramente biológico e não levam em conta o seu pleno sentido. É neste contexto soteriológico do gênero humano que está radicado o dogma da Imaculada Conceição.



Salve Maria!

fonte: ISCR - Instituto Superior de Ciências Religiosas

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