quarta-feira, 12 de maio de 2010

4a PARTE DO ESTUDO DA MARIOLOGIA: A ASSUNÇÃO CORPORAL DE MARIA


É UMA GRAÇA ESTRITAMENTE ASSOCIADA À Imaculada Conceição. O entendimento deste privilégio mariano foi mais fácil aos cristãos do que o da Imaculada


HISTÓRIA DO DOGMA


OS ANTIGOS ESCRITORES GREGOS DA IGREJA


Antes do século IV não há notícia a respeito do fim da vida terrestre de Maria SSma. O primeiro autor que falou da sua morte, foi S. Efrém (+373): “Virgem, ela o deu à luz, e fica incólume em sua virgindade; ela o levantou e o alimentou com seu leite. Ela é virgem, e assim morre, sem que sejam violados os selos da sua virgindade” (Hino 15,2). Santo Efrém dá ênfase à virgindade perpétua; a morte é mencionada, como um fato.



S. Epifânio (+403) aborda o assunto, revelando incerteza: “A Sagrada Escritura não diz se Maria morreu, se foi sepultada ou se não foi sepultada...Conservou absoluto silêncio por causa da grandeza do prodígio, a fim de não deixar assombrados os espíritos dos homens. Quanto a mim, não ouso falar disso. Conservo a questão em minha mente e me calo” (Panarion,Haer. 78).


Epifânio examina a hipótese do martírio cruento de Maria Ssma (já que Simeão predissera que uma espada lhe traspassaria o coração – Lc 2,55); considera também a elevação gloriosa de Maria aos céus conforme Ap 12,1.14: “É possível que isto se tenha realizado em Maria. Mas não afirmo de modo absoluto, nem digo que permaneceu isenta da morte. Maria morreu? – Não o sabemos”.

Século IV, sermão de Timóteo (presbítero de Jerusalém): “Uma espada transpassará a tua alma!” - Destas palavras muitos concluíram que a Mãe do Senhor, morta pela espada, obteve o fim glorioso que é o martírio. A espada metálica divide o corpo e não a alma.


Nos primeiros séculos há tendência a crer que Maria não morreu. Mas, uma corrente gnóstica afirmava que Maria se encontrava imortal, oculta em algum lugar da terra. A fé do povo de Deus se exprimiu no estilo fantasioso dos apócrifos, vejamos: “O Senhor a abraçou, tomou a sua alma e a colocou nas mãos de Miguel, que a envolveu em peles mais brilhantes do que se pode dizer. Nós, apóstolos, vimos a alma de Maria nas mãos de Miguel; tinha perfeita aparência; a semelhança do corpo de um esplendor sete vezes mais refulgente do que o sol. Três dias depois desceram ao sepulcro de Jesus, Miguel e Gabriel. Então o Senhor ordenou a Miguel que pusesse o corpo de Maria sobre uma nuvem e o depositasse no paraíso. Quando todos chegaram ao paraíso, depositaram o corpo de Maria sobre a árvore da vida” (L’Assomption de la T.S. Vierge dans la tradition byzantine).


Tal texto carece de valor histórico. Exprime a fé do povo cristão. A afirmação da Maternidade Divina de Maria e de sua santidade (própria do templo de Deus) catalisou as expressões da crença na vitória de Maria sobre a morte.


OS ESCRITOS LATINOS

Os Padres Latinos afirmavam que Maria havia morrido. Palavras de S. Ambrósio (+397), que comenta a perseverança de Maria ao pé da cruz de Jesus. Donde lhe vinha tanta coragem?: “Se ela morria com seu Filho, sabia que havia de ressuscitar com Ele”.

Santo Agostinho (+430) fala da morte de Maria: “Confia Ele sua Mãe ao discípulo, pois havia de morrer antes da sua Mãe Aquele que havia de ressuscitar antes que sua Mãe morresse”.


Antes do Séc IV não há notícia do fim da vida terrestre de Maria. No séc. IV aparece os primeiros testemunhos, que afirmam a morte física da Mãe de Deus. Após o Concílio de Éfeso (431), que proclamou solenemente a maternidade Divina, foi aflorando no povo cristão a noção de que Maria não esteve sujeita à deterioração.


A LITURGIA

Século VI, inicia entre os cristãos orientais, a celebração litúrgica do Trânsito ou Dormição de Maria, sempre em 15 de agosto de cada ano. O objeto desta festa não era muito claro, variava de região a região.


Os coptas, com o Patriarca monofisista de Alexandria, Teodósio (+567) celebram duas festas: a da morte de Maria (16 de janeiro) e da ressurreição gloriosa (9 de agosto). Para eles o corpo de Maria é conservado no paraíso.


Os Nestorianos celebram a morte de Maria em termos folclóricos, pois tem a Virgem como protetora dos vinhedos. O corpo de Maria estaria conservado intato, à espera da ressurreição dos mortos.


Os sírios Jacobitas celebravam em 15 de agosto a morte de Maria, sem falar de ressurreição ou de conservação do corpo da Virgem.


No ocidente, a partir do século VII, celebrava-se em Roma a Dormição de Maria, patrocinada pelo Papa Sérgio I (687-701). De Roma, a festa passou para a França e a Inglaterra, tomando o nome e “Assunção de Santa Maria”; este título sugeria a ressurreição imediata da Virgem Santíssima e a sua glorificação na bem-aventurança celeste.


DA TEOLOGIA MEDIEVAL AOS NOSSOS DIAS

Oriente, séc. VIII e IX ainda foram de incertezas. Houve teólogos que afirmavam a Assunção corporal de Maria após a sua morte e ressurreição: S. Modesto de Jerusalém (+634), S, Germano de Constantinopla (+733), S. André de Creta (+729), S. Teodósio Studita (+826), S, Jorge de Nicomédia (+880). Enfim, firmou-se a crença na Assunção gloriosa, a tal ponto que o Imperador de Bizâncio Andrônico II (1282-1328) promulgou um decreto que consagrava o dia 15 de agosto como festa solene da Assunção gloriosa de Maria. Em nossos dias, os orientais ortodoxos, com unanimidade professam a Assunção corporal de Maria como sendo objeto de antiga e piedosa crença do povo cristão.


No ocidente os grandes doutores medievais professaram a morte e a ressurreição de Maria como prelúdio de sua exaltação corporal. Enquanto não se tinha clara noção da Imaculada Conceição, os autores latinos afirmavam que Maria morreu, conf. Sto Tomás de Aquino: “A carne da Virgem foi concebida em pecado original e, por isto, contraiu tais deficiências” (entre as quais a morte).


No séc. XVI, Lutero e os protestantes em geral, professando seguir apenas a S. Escritura, negaram a Assunção de Maria.


No séc. XVIII foi apresentada à Santa Sé a primeira petição em favor da definição do dogma da Assunção; devia-se ao Pe. Cesário Shguanin (+1769), teólogo da Ordem dos Servos de Maria. Seguiram-se muitas outras, provenientes de várias partes do mundo católico. No séc. XIX destacaram-se as petições do Cardeal Sterkx e de Monsenhor Sanchez em 1849, bem como a da Rainha Isabel da Espanha, dirigidas ao Papa Pio IX. Argumentavam a partir da santidade e da virgindade de Maria, como também em vista da participação de Maria na obra da Redenção na qualidade de Mãe do Salvador.


DEFINIÇÃO DOGMÁTICA

DO SÉCULO VI AO SÉCULO XV

Por ocasião do Concílio Vaticano I (1870) quase duzentos Bispos pediram ao Papa Pio IX a definição da Assunção de Maria. Eis uma seção do texto da petição: “Segundo a doutrina do Apóstolo (Rm 5,8; 1Cor 15,24.26.54.57; Hb 2,14s), o triunfo de Cristo sobre Satanás, a antiga serpente, se condensa na tríplice vitória sobre o pecado e suas conseqüências (a concupiscência e a morte). Mais: em Gn 3,15 manifesta a mui particular vinculação da Mãe de Deus com seu Filho na obtenção desse triunfo. De acordo com o parecer unânime dos Santos Padres, não duvidamos de que, no mencionado oráculo, a Bem-aventurada Virgem é apresentada como participante naquela tríplice vitória; por conseguinte esse mesmo texto profetiza que Maria seria feita vencedora do pecado por sua Imaculada Conceição, vencedora da concupiscência por sua maternidade virginal e também vencedora da morte por sua imediata ressurreição à semelhança de seu Filho”


Centenas de outras petições foram levadas à Santa Sé até Pio XII (1939-58). Este Pontífice solicitou então aos Padres Jesuítas W. Heinrich e R. de Moos que compilassem e publicassem esses textos; saíram do prelo dois volumes em 1942. A primeiro de maio de 1946, Pio XII escreveu a carta Deiparae Virginis a todos os Bispos, perguntando-lhes se a Assunção de Maria era tida pela Igreja como proposição de fé revelada e, em caso positivo, se julgava conveniente a respectiva definição. Respostas positivas: 98,2%.


Tendo assim chegado à convicção de que a Igreja inteira, sob a direção do Espírito Santo, acreditava que a Assunção de Maria estava contida no depósito da Revelação, Pio XII resolveu definir o dogma a primeiro de novembro de 1950. Eis o teor da definição: “Para a glória de Deus Todo-Poderoso, que outorgou à Virgem Maria a sua peculiar benevolência; para a honra de seu Filho, Rei imortal dos séculos e vencedor do pecado e da morte; para credenciar a glória dessa mesma augusta Mãe e para o gáudio e a alegria de toda a Igreja..., pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma revelado por Deus que a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da sua vida terrestre, foi assumida em corpo e alma à glória celeste” (Bula Munificentissimus Deus, 18)


Podemos dizer:


a. A Assunção de Maria é um dom da peculiar benevolência do Pai; por conseguinte, não é um direito adquirido por Maria;


b. Se é graça, deve redundar em “glória de Deus onipotente e em honra do seu Divino Filho”. O culto a Maria que esquecesse o termo supremo de toda religião (o louvor do Criador), seria falho;


c. A definição não é a criação de um novo dogma. Nada acrescenta ao patrimônio da fé. Pio XII enfatizou que se trata de uma verdade revelada por Deus (na Tradição oral e escrita) e reconhecida pela Igreja, guiada pelo Espírito Santo;


d. Pio XII não quis dirimir a questão da morte ou da imortalidade corporal de Maria. Por isto usou a fórmula bem ponderada: “terminado o curso de sua vida terrestre”. No Séc. XIX forte corrente que apregoava a hipótese de Maria não ter morrido, pois isto decorreria da sua absoluta isenção de pecado ou da Imaculada Conceição. Tal hipótese, porém, não correspondia à Tradição da Igreja nem ao ensinamento dos teólogos nem ao magistério ordinário da Igreja. Pio XII não quis entrar em questão; referiu-se apenas à glorificação celestial de Maria em corpo e alma, ficando a cada fiel a liberdade de optar pela morte ou imortalidade corporal de Maria.


FUNDAMENTAÇÃO BÍBLICA


Pio XII quis reler os textos seguintes:


Gn 3,15: “Porei inimizade entre a mulher e a serpente”. A única mulher do contexto é Eva, o papel de Eva a combater a serpente só é pleno em Maria. A Tradição referiu-se à nova Eva, que acompanhou o novo Adão em sua vitória sobre o pecado e a morte. Maria compartilhou o triunfo de Cristo sobre a morte, escapando à deterioração do sepulcro;


Lc 1,28: Maria é Kecharitoméne, cheia de graça. A glorificação corporal de Maria, superando o poder da morte, é o coroamento da plenitude de graça apregoada pelo anjo Gabriel;


Ap 12,1: “Um sinal grandioso apareceu no céu: uma Mulher vestida com sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas”. A mulher revestida de sol significa o povo de Deus que gera o Messias e que tem a promessa da glória eterna; nesse povo Maria brilha como figura primacial que dá à luz o Messias e é gloriosa por graça de Deus.


Ex 20,12; Lv 19,13: “Honra teu pai e tua mãe”. Era, sim, conveniente que o Filho desse o exemplo de obediência à sua Mãe, preservando-a imune da deterioração do sepulcro;


Os Padres da Igreja consideravam Maria a Arca da Aliança e o Tabernáculo do Altíssimo por excelência. Só isto aplicavam-lhe os textos que falam da santidade e da inviolabilidade da Arca. Is 60,13: “Glorificarei o lugar em que pisam os meus pés”; Sl 132, 8: “Levanta-te, Senhor, para o teu repouso, tu e a arca da tua força”.


Refletindo sobre estes textos, podemos dizer que nenhum deles, de per si, prova a Assunção corporal de Maria. A Revelação Divina há de ser tomada como um todo que, por via oral e escrita, nos fala de Jesus Cristo e da sua vitória sobre o pecado e a morte.


APROFUNDAMENTO TEOLÓGICO


A Assunção de Maria não pode ser considerada como um fato isolado. Está inserida no contexto da obra redentora realizada por Cristo através da Igreja. Assim, colocamos em relevo a conexão da Assunção com as grandes verdades da fé católica;


a. A maternidade de Maria: Não foi apenas uma realidade biológica, mas uma profunda participação na missão salvífica de seu Filho;


b. A virgindade de Maria: Fez que Jesus não tivesse um pai terrestre. Era conveniente que a carne de Maria também fosse assim glorificada, acompanhando o Cristo vitorioso;


c. A Graça santificante de Maria: A graça santificante, existente em todo cristão fiel, é uma semente da bem-aventurança celeste (ressurreição e vida plena). Em Maria esse desabrochar foi antecipado; não esperou o fim dos tempos, mas ocorreu logo após a caminhada terrestre.

d. A possível morte de Maria: Não se considere a morte apenas como ruptura ou como algo de abominável. O cristão associa a sua morte à morte de Cristo (Rm 6,5s). Maria experimentou a morte; ela foi remida por Cristo e deve ter realizado, como os demais seres humanos, esse supremo ato de fé e entrega que os homens redimidos fazem quando passam pelo transe da morte.


e. Com relação à Igreja: Maria exaltada na glória celeste é protótipo; ela representa desde já aquilo que tocará a cada cristão na consumação da história; ela é em plenitude aquilo que esperamos ser um dia dentro dos limites de nossa pobreza; ela desperta e aviva em nós a esperança, pois põe em relevo nítido o que é seguir o Cristo passo a passo na terra até provar o cálice da morte com Ele.



Salve Maria!
fonte: ISCR - Instituto Superior de Ciências Religiosas

Nenhum comentário:

Postar um comentário