terça-feira, 25 de maio de 2010

10a. PARTE DO ESTUDO DA MARIOLOGIA: FUNDAMENTAÇÃO - NOVO TESTAMENTO: SÃO JOÃO


MARIA NO QUARTO EVANGELHO


Apresenta duas passagens muito importantes: a bodas de Caná (Jo 2,1-11) e Maria ao pé da Cruz (Jo 19,25-27)



A BODAS CANÁ


O episódio é cristológico. Jesus em relevo, que se apresenta com seu primeiro sinal, suscitando a fé dos discípulos. Maria aparece como Mãe e Medianeira.



Jo 2,3: “Eles não tem mais vinho”. Observação solícita da mulher que compartilha o mal-estar do noivo. Maria não apenas verifica, mas pede ao seu Divino Filho que intervenha. A fórmula “Eles não tem mais vinho” é paralela das duas irmãs de Lázaro: “Senhor, aquele que tu amas, está doente” (Jo 11,3), em ambos há um pedido discreto.



Jo 2,4: “Que queres de mim, mulher? Minha hora ainda não chegou”. Significa uma atitude reservada de Jesus frente ao pedido implícito de sua Mãe. A razão desta reserva é que “não chegou a hora de Jesus”.



No quarto Evangelho, a hora de Jesus é a de sua glorificação final, compreendendo morte de cruz e ressurreição. A hora não pode ser antecipada, Jesus não se recusará atender à sua Mãe, antecipando, a grande Hora, um sinal que prenuncie a glorificação de Jesus.



Quanto ao termo mulher, há de ser entendido à luz de Gn 3,15. Mulher é chamada “Mãe dos vivos (Eva)”. Maria é a Mulher “Mãe dos vivos”, pois deu à luz o Vencedor da morte.



Jo 2,5: “Fazei tudo o que ele vos disser” – Maria pede e tem certeza de que Jesus não ficará indiferente ao seu pedido.



Em Jo 2,4s e Jo 7,3-10: os “irmãos de Jesus” incitam o Senhor a se manifestar como Messias em Jerusalém; Jesus responde que “o seu tempo ainda não chegou”; todavia acaba subindo a Jerusalém, onde se põe a pregar. Vemos a diferença: os “irmãos de Jesus” não têm fé e, por isto, desafiam Jesus, ao passo que Maria Ssma se dirige a Jesus cheia de fé.



A resposta de Jesus a sua Mãe em Jo 2,6-11 é realmente messiânica. O Senhor doou seis talhas de vinho, contendo 6 x 80 litros, ou seja 480 litros – quantidade que ultrapassa longe a necessidade dos convivas. Na mesma linha está a multiplicação dos pães (Jo 6,11-13), redundou em excesso de pão. Em ambos os casos a grande quantidade (seja de pão, seja de vinho) lembra as profecias relativas aos tempos messiânicos; estes eram tidos como tempos de fartura, fartura que simbolizava a riqueza dos bens espirituais trazidos do Messias (ver Jl 4,18).



Que significado tem o episódio das bodas de Caná para a mariologia? – É um episódio cristológico, o evangelista quer apresentar o primeiro sinal, manifestação da glória de Jesus (Lc 2,11), mas também, o autor, está interessado na figura de Maria. E qual o papel que toca aí a Maria? – O da Mãe espiritual em duplo sentido:


· É a mulher previdente e providente, que compartilha as necessidades dos homens. Ela está no limiar da vida pública de Jesus, intercedendo pelos homens;


· É a fé de Maria que obtém o sinal que provoca a fé dos discípulos.



Redemptoris Mater, de João Paulo II, 21: A partir da descrição dos fatos de Caná, se manifesta a maternidade nova, segundo o espírito e não somente segundo a carne. É a solicitude de Maria pelos homens, o seu ir ao encontro deles, nas suas carências e necessidades. Dá-se, portanto, uma mediação: Maria põe-se de permeio entre o seu Filho e os homens na realidade das suas privações, das suas indigências e dos seus sofrimentos. Faz-se mediadora, não como uma estranha, mas na sua posição de mãe. A sua mediação, portanto, tem um caráter de intercessão: Maria intercede pelos homens. Como Mãe deseja também que se manifeste o poder messiânico do Filho, o seu poder salvífico que se destina a socorrer as desventuras humanas, a libertar o homem do mal.



Nas palavras dirigidas aos que servem à mesa: “Fazei aquilo que ele vos disser”. A Mãe de Cristo apresenta-se diante dos homens como porta-voz da vontade do Filho, como quem indica as exigências que devem ser satisfeitas, para que possa manifestar-se o poder salvífico do Messias. Em Caná, graças a intercessão de Maria e à obediência dos servos, Jesus dá início à sua hora. Em Caná, Maria aparece como quem acredita em Jesus: a sua fé provoca da parte dele o primeiro “milagre” e contribui para suscitar a fé dos discípulos.



13. MARIA AO PÉ DA CRUZ


Lá ficou em companhia de João, o discípulo que Jesus amava, e de duas ou três mulheres, entre as quais Maria madalena. Foi nesse momento que Jesus, tendo em vista João, disse a Maria: “eis aí teu Filho”: “Eis aí tua Mãe”.



O apelativo “Mulher” mais uma vez chama a atenção. Há de ser entendido em consonância com Gn 3,15 e Jo 2,4: Maria é interpelada como Mãe...Mãe dos vivos, nova Eva, e o seu filho lhe é apontado concretamente: é João, o representante de todo o gênero humano. Aqui é confirmada a maternidade spiritual de Maria.



Maria, junto da cruz, num sentido espiritual, no mesmo sofrimento. Sofria no seu coração o que o filho sofria na carne. Quando Cristo grita: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46), a Virgem Maria deve ter sido transpassada por um sofrimento que humanamente correspondia ao do Filho. Uma espada trespassará a tua alma. A fim de se revelaram os pensamentos de muitos corações (Lc 2,35); também do teu, se ousares acreditar ainda, se fores ainda bastante humilde para acreditar que, de fato, és a escolhida entre as mulheres, aquela que encontrou graça diante de Deus. Maria no calvário foi trespassada por um sofrimento que, humanamente correspondia ao do Filho.



E como se trata de piedade humana, e não de pecado, Jesus a experimentou quando estava morrendo. A diferença infinita entre Cristo e Maria não nos deve fazer esquecer a semelhança, também infinita, que há entre eles; de outra maneira seria como negar que Jesus tenha sido homens de verdade; seria docetismo.



Jesus já nos diz: “que temos nós com isso, mulher? A minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4). Agora que sua hora chegou, há entre ele e sua mãe algo de grande em comum: o mesmo sofrimento. Naqueles momentos extremos, quando também o Pai se escondeu misteriosamente ao seu olhar de homem, restou para Jesus somente o olhar de sua mãe onde procurar refúgio e consolação.



Quando lhe disse: “Mulher, eis aí o teu Filho”. Quem poderia penetrar o mistério daquele olhar entre Mãe e Filho numa hora semelhante? Em qualquer sofrimento humano, também no de Cristo e de Maria, há uma dimensão íntima e particular, que se vive em família entre aqueles que estão unidos pelo vínculo do mesmo sangue.



Uma alegria imensamente sofredora passava de um para outra, como água entre vasos comunicantes, alegria porque já não opunham resistência à dor, já não tinham nenhuma defesa diante do sofrimento, mas deixavam-se invadir livremente por ele até o íntimo.



Ao pé da cruz, Maria experimentou a sua hora. No sofrimento, ela se tornava Mãe da humanidade. “Quando a mulher está para dar à luz, sente tristeza porque é chegada a sua hora. Mas, depois que deu à luz, não se lembra mais da sua aflição, mas enche-se de alegria por ter nascido um homem para o mundo” (Jo 16,21s). Tal imagem se tornou realidade, em grau máximo, quando a Maria junto à cruz Jesus foi conferir a maternidade sobre todos os homens. Como Mãe da humanidade, preenche o papel de Nova Sião ou nova Jerusalém, da qual dia o Salmo 87: “O Senhor ama as portas de Sião mais que todas as moradas de Jacó. Ele conta glórias de ti, ó cidade de Deus...De Sião será dito: Todo homem ali nasceu e foi o Altíssimo que afirmou”. Daí dizer-se que as promessas feitas a Jerusalém se cumprem plenamente em Maria, a humilde representante de Sião por ocasião de sua estada ao pé da cruz de Jesus.




Salve Maria!

fonte: ISCR - Instituto Superior de Ciências Religiosas

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