segunda-feira, 19 de abril de 2010

PADRES CONSERTADORES


Ainda menino, mergulhei na idéia de ser sacerdote e ajudar pessoas. Por isso, optei por uma congregação de padres consertadores. Para mim, os dehonianos, naquele tempo, chamados de “padres reparadores”, tinham a missão de consertar e ensinar a consertar comunidades. Eram os padres do Sagrado Coração de Jesus. Eram meio teólogos e meio sociólogos. Editavam uma revista chamada “Reparação”

Eu entendia o Coração de Jesus como aquele que tinha dó dos sofredores e que ajudava as pessoas com dificuldade. Jesus consertava os estragos que os sujeitos maus faziam. Os padres tinham esta missão de convocar os bons para ajudarem quem sofria e combater os maus e os desorientados.

Tendo pai paralítico e mãe com saúde precária, que depois evoluiu em diabetes e amputação das pernas, chegávamos ao fim do mês com enorme dificuldade. Mas era uma pobreza repartida. Ninguém ficava sem a sua porção. O dinheiro era colocado em comum e primeiro se cuidava do pai paralítico, depois, de quem mais precisasse naquele mês. Comida especial, só se sobrasse alguma coisa!

Aí entravam os padres consertadores. As pessoas da comunidade eram motivadas a nos ajudar e o faziam de maneira muito fraterna. Foram eles que me possibilitaram, a mim e vários meninos, a chance de estudar. Acharam quem nos ajudasse.

Mais tarde, já no seminário aprendi que o verbo consertar é um tanto quanto atrevido. Quem somos nós para consertar o mundo? Entendi, enfim, a idéia de reparação. Se quem deveria fazer não faz, nós fazemos. Se alguém vai embora, nós ficamos, assumindo o que ele abandonou. Se faltam voluntários, nós nos apresentamos. Se quebrou, a gente ajuda a consertar. O Deus que fez também refaz. O Deus que criou, se preciso, recria. Quem fez o vaso, se este se quebrar, junta os cacos e o torna outra vez o vaso que era.

Reparar foi ficando um verbo associado aos verbos libertar, promover, elevar, consertar, devolver ao primeiro fim, redirecionar, corrigir a rota de uma vida. Para isso era preciso estudar psicologia, filosofia, história, sociologia, direito, teologia e matérias que nos preparassem para entender melhor o nosso tempo, nossa gente, as políticas, as outras igrejas, a cruz, as dores e os sonhos de cada pessoa que viesse a nos procurar. Tínhamos que ter uma visão sociológica do país. Não deveríamos apenas ensinar o povo a rezar. Ele queria que aprender a pensar, a agir e a reagir diante das injustiças.

O fundador de nossa congregação de sacerdotes e irmãos dedicou-a ao Coração de Jesus, acentuando a misericórdia do céu e as necessidades urgentes do povo. Sendo, ele mesmo, sacerdote, advogado, sociólogo, estudioso de teologia e de ascese cristã pediu dos seus padres que fossem homens estudiosos e ligados ao povo. Só se conserta e repara um país a partir do povo. As elites podem ajudar e ajudam, mas é a formação da consciência da maioria, no caso os pobres, que muda uma nação. Todos precisam conhecer seus deveres para com Deus e para com o seu país, e todos precisam conhecer os seus direitos.

Faz 50 anos que emiti os primeiros votos nesta congregação e nela permaneço acreditando na sua proposta. Sou um reparador, não porque reparo no país ou nos outros, para porque imagino a Igreja e a política uma oficina onde se forma gente capaz de reparar o que se quebrou. Errar todo mundo erra, mas um país que teima em não consertar suas leis mal feitas e se nega a redirecionar-se a partir das igrejas, do governo, do congresso e do judiciário, acaba um país sem conserto!

O Brasil está nesta situação: precisa urgentemente de conserto e de consertadores. Não existem oficinas de reparos de máquinas? Que se montem por toda a parte oficinas de reparo da máquina Brasil. Melhorou, mas está longe de ser um país que deu certo. Talvez um dia dê, mas vai ter que passar pela oficina! Apertou demais onde não devia e afrouxou onde teria que apertar!


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