quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A ESSÊNCIA DA PERFEIÇÃO CONSISTE NA CARIDADE

Em tese, o amor de Deus e do próximo, é sobrenatural, pois o Deus que amamos, é o Deus que a revelação nos manifesta, a Santíssima Trindade. Então, esse amor para com Deus e o próximo, não é um amor de sensibilidade e podemos encontrar a sua essência, na dedicação, na vontade firme de se dar e, se tanto for necessário, de se imolar todo por Deus e pela sua glória, de preferir o seu divino agrado ao nosso e ao das criaturas.

Guardando as devidas proporções, podemos dizer: quando amamos o próximo, é Deus que amamos nele, por ser imagem e reflexo das suas divinas perfeições. Então, não existem duas virtudes de caridade, uma para com Deus e outra para com o próximo, mas há uma só, ou seja, Deus amado por si mesmo e ao próximo amado por Deus.


Vejamos o que nos diz a Sagrada Escritura:


Lc 10,25-29: “Levantou-se um doutor da lei e, para pô-lo à prova, perguntou: Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna? Disse-lhe Jesus: Que está escrito na lei? Como é que lês? Respondeu ele: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento (Dt 6,5); e a teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18). Falou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isto e viverás. Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo?”


Mt 22,40: “Nesses dois mandamentos se resumem toda a lei e os profetas”.


Rm 13,10: “A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é o pleno cumprimento da lei”.


1Cor 13: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria! A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará. A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita. Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança. Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido. Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade – as três. Porém, a maior delas é a caridade”.


São João, a apóstolo do amor, dá-nos a razão fundamental desta doutrina. Deus, diz ele, é caridade, “Deus caritas est”, cf, 1Jo 8,16. Desta forma, se queremos nos parecer com Ele, ser perfeitos como nosso Pai celeste, devemos amá-lo como Ele nos amou; e como não O podemos amar, sem amar o nosso próximo, vamos amar o nosso próximo até nos sacrificarmos por ele.


A luz da razão iluminada pela fé, podemos dizer que um ser é PERFEITO, quando alcança o seu fim ou se aproxima de Deus o mais possível (MAGIS, ou cristão com sinal +). Ora, o fim do homem, na ordem sobrenatural, é Deus, eternamente possuído pela visão beatífica e pelo amor que dele resulta; e na terra devemos viver em união íntima com a Santíssima Trindade que habita em nós. Desta forma, quanto mais unidos estamos com Deus, nosso último fim e origem de nossa vida, tanto mais perfeitos somos.


Então perguntamos: Qual é, entre as virtudes cristãs, a mais UNITIVA, a que une a nossa alma inteira a Deus, senão a Divina CARIDADE? – As outras virtudes, apenas nos preparam para essa união, ou até nos iniciam nela, mas não a podem consumar. As virtudes morais: prudência, fortaleza, temperança, justiça etc…, não nos unem diretamente com Deus, mas limita-se a suprir ou diminuir os obstáculos que dele nos afastam. Como exemplo, podemos citar a humildade, que remove do nosso íntimo, o orgulho e o amor próprio, e nos coloca dispostos a prática da caridade, desta forma, praticamos o amor na justa medida, e, submetemos a nossa vontade à vontade de Deus, e assim, nos unimos a Ele. Da mesma forma as virtudes teologais, Fé e Esperança, que sem dúvida nos une a Deus, mas de maneira incompleta.


Só a CARIDADE se apodera de nossa alma por inteiro: inteligência, coração, vontade, atividade, e assim, nos entregamos a Deus, sem reserva. A CARIDADE nos une a Deus, nosso fim, o infinitamente perfeito, e constitui o elemento essencial de nossa PERFEIÇÃO.


Sobre a ESSÊNCIA da CARIDADE, já nos dizia São Francisco de Sales (+1622), no seu Livro “Tratado sobre o Amor de Deus”: “A caridade encerra todas as virtudes”. Como a PERFEIÇÃO consiste, evidentemente, na aquisição das VIRTUDES: quem as adquiriu todas, em grau não somente inicial, mas elevado, é sem dúvida perfeito. Ora, quem possui a CARIDADE possui todas as VIRTUDES na sua PERFEIÇÃO.


Ainda, São Francisco de Sales, citando a Primeira Carta aos Coríntios nos diz: “Paulo não diz somente que a caridade nos dá paciência, benignidade, constância, simplicidade; antes diz que ela mesma é paciente, benigna, constante”, ou seja, Francisco fala desta forma, porque a CARIDADE contém a PERFEIÇÃO de todas as VIRTUDES.


Continua o Santo de Sales: “Todas as virtudes, separadas da caridade, são muito imperfeitas, pois não podem sem ela chegar ao seu fim, que é tornar o homem feliz… Não nego que sem a caridade possam nascer, e até mesmo fazer progressos; mas que tenha a sua perfeição, para merecerem o título de virtudes feitas, formadas e consumadas, isso depende da caridade que lhes dá a força de voar para Deus e recolher na sua misericórdia o mel do verdadeiro mérito e da santificação dos corações, em que elas se encontram. A caridade é entre as virtudes como o sol entre as estrelas: por todas reparte a sua claridade e beleza. A fé, a esperança, o temor e penitência vêm ordinariamente adiante dela à alma, para lhe prepararem a morada; e, tanto que ela chega, obedecem-lhe e servem-na como todas as demais virtudes, e ela a todas anima, adorna, vivifica pela presença”.


Assim, ao fazermos um ato de caridade, devemos rever nossas atitudes de proclamar aos sete ventos, o dom de amor que recebemos e não ficar reclamando que outros não ajudam, não participa, pois obedecer e humilhar-se custa muito à nossa orgulhosa natureza; mas ter a convicção de que praticando esses atos, amamos a Deus e procuramos a sua glória, facilita singularmente a nossa caminhada.


A guisa de conclusão, dizemos, se é certo que a essência da PERFEIÇÃO consiste no AMOR DE DEUS, concluímos que o ATALHO maravilhoso para este alcance, é AMAR MUITO, AMAR com GENEROSIDADE e INTENSIDADE e sobretudo, com AMOR PURO e DESINTERESSADO.


Assim, pois, cada uma de nossas ações, por mais vulgar que seja em si mesma, pode ser transformada em um ATO DE AMOR e fazer-nos avançar para a PERFEIÇÃO. O PROGRESSO será tanto mais real e acelerado quanto mais intenso e generoso for este AMOR, e, por conseguinte, quanto mais enérgico e constante for o nosso esforço; porquanto, o que vale aos olhos de Deus é a VONTADE, é o esforço, independente de toda a emoção sensível.


Amigos, AMAR a DEUS e ao PRÓXIMO por DEUS, eis o segredo da perfeição, contanto que neste mundo se lhe junte o SACRIFÍCIO.

Referência:

Tanquerey, Ad. Compêndio de Teologia Ascética e Mística, Braga, Pt, 1961.

fonte: Site Caritatis de Eduardo Caridade, CM

Salve Maria!

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